• A quebra-pedra, planta comum em calçadas e quintais amazônicos, será incluída no SUS para tratamento de pedras nos rins pela Fiocruz.
  • Existem três espécies de quebra-pedra no Brasil com propriedades medicinais: Phyllanthus niruri, Phyllanthus amarus e Phyllanthus tenellus, cada uma com características distintas.
  • Usada há séculos por comunidades tradicionais, a planta possui compostos fenólicos que relaxam ureteres, facilitam eliminação de cálculos renais e atuam como poderoso diurético natural.

Você já viu aquela plantinha miúda crescendo nas frestas das calçadas? Pois é, ela tem nome: quebra-pedra. E o que parece mato pode ser a solução para um problema que atormenta milhões de brasileiros. O Sistema Único de Saúde (SUS) vai incluir essa planta, encontrada na Amazônia e em todo o país, na lista oficial de medicamentos fitoterápicos para tratar cálculos renais. O remédio está sendo desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A decisão comprova cientificamente o que avós e benzedeiras sempre souberam. A quebra-pedra realmente quebra pedras nos rins. A sabedoria popular transmitida por gerações ganha respaldo oficial. É a ciência finalmente alcançando o conhecimento ancestral.

Afinal, o que é essa tal de quebra-pedra?

“É uma planta anual muito encontrada em regiões quentes, úmidas e ensolaradas, como é típico aqui da Amazônia. É muito comum encontrá-la em solos arenosos e lugares inusitados como fendas de calçadas e muros”, explica a professora Márcia Aviz, docente da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), em entrevista ao site da instituição.

Sim, aquela plantinha que você pisa todo dia pode ser um medicamento. Originária das regiões tropicais e subtropicais das Américas, a quebra-pedra se espalhou por todo o Brasil. Pequena, discreta e resiliente, ela cresce onde ninguém espera. Nos canteiros abandonados, entre pedras, nas beiras de muro.

Mas aqui vai uma surpresa: não existe apenas uma quebra-pedra. São três espécies diferentes crescendo pelo país. Todas com propriedades medicinais comprovadas. Cada uma com características únicas que permitem identificação precisa.

Três espécies, um mesmo poder curativo

O biólogo e especialista em plantas medicinais Daniel Forjaz explica em vídeo educativo no YouTube como diferenciar as três espécies de quebra-pedra encontradas no Brasil: Phyllanthus niruri, Phyllanthus amarus e Phyllanthus tenellus.

“São três espécies botanicamente diferentes que você pode encontrar no Brasil, mas que são utilizadas da mesma forma fitoterápica. Qualquer uma dessas três quebra-pedras você pode usar”, destaca Forjaz.

Todas as três espécies são seguras e eficazes. Apresentam compostos semelhantes com ação terapêutica. A diferença está nas características botânicas e, em alguns casos, na concentração de princípios ativos específicos.

Como identificar cada espécie de quebra-pedra

Saber diferenciar as espécies garante coleta correta e uso adequado. O biólogo Daniel Forjaz ensina características marcantes de cada uma. Pequenos detalhes fazem toda diferença na identificação.

Phyllanthus niruri: a mais estudada cientificamente

Características principais:

  • Caule: verde da base até o topo, fino e delicado
  • Folíolos: separados, sem linha branca no centro
  • Ramificações: apresentam pontos avermelhados onde brotam
  • Flores e frutos: formam-se principalmente nas pontas, embaixo das folhas
  • Raízes: finas, formando cabeleira
  • Crescimento: ramificações começam na base e ficam mais próximas no topo

Essa é a espécie mais comum e mais estudada medicinalmente. Pesquisas científicas concentram-se principalmente nela. É a mais encontrada em estudos sobre tratamento de cálculos renais.

Phyllanthus amarus: especialista em hepatite

Características principais:

  • Linha branca: presença marcante de linhas brancas sobre as folhas (característica única)
  • Caule: coloração avermelhada, principalmente na base
  • Frutificação: muito intensa, praticamente todos os folíolos têm flores ou frutos embaixo
  • Ramificação: verdadeiros ramos laterais saindo do caule central
  • Porte: pode atingir até 60 centímetros de altura
  • Estrutura: possui caule central principal com ramos laterais

“Para tratamento de hepatite essa aqui é a mais reconhecida e mais utilizada”, explica Daniel Forjaz. A Phyllanthus amarus ganhou destaque internacional no tratamento de hepatites virais.

Phyllanthus tenellus: a mais ramificada

Características principais:

  • Caule: castanho-avermelhado escuro, tortuoso (faz curvas)
  • Estrutura: muito mais esgalhada e aberta que as outras
  • Folíolos: bem separados uns dos outros
  • Flores e frutos: ficam pendurados em talos longos embaixo das folhas
  • Aparência geral: mais desorganizada e espalhada

O caule tortuoso é marca registrada dessa espécie. Enquanto as outras crescem retas, a Phyllanthus tenellus serpenteia. Os frutos pendurados em pedúnculos longos também ajudam na identificação.

Quadro comparativo das três espécies

CaracterísticaP. niruriP. amarusP. tenellus
Cor do cauleVerde claroAvermelhadoCastanho-avermelhado escuro
Linha branca nas folhasAusentePresenteAusente
Formato do cauleRetoRetoTortuoso
FrutificaçãoPrincipalmente nas pontasIntensa em toda plantaPendurada em talos longos
RamificaçãoFolhas diretasRamos lateraisMuito esgalhada
Altura máximaAté 40 cmAté 60 cmAté 50 cm
Uso medicinal destacadoPedras nos rinsHepatiteProblemas urinários

De onde vem esse nome curioso?

“Ela ganhou destaque por auxiliar na prevenção e eliminação de pedras nos rins e na vesícula. O que explica o nome e o uso principal, além de ser um potente diurético natural“, destaca a professora Márcia, da Universidade Federal Rural da Amazônia.

A lógica popular batizou a planta com base no efeito observado. Pacientes que usavam o chá eliminavam cálculos renais com mais facilidade. As pedras pareciam se desfazer, quebrar em pedaços menores. O alívio da dor era perceptível. O nome pegou e atravessou gerações.

Comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas usam a quebra-pedra há séculos. Benzedeiras preparam o chá com folhas frescas ou secas. Parteiras ensinam o preparo correto. Esse conhecimento passa de mãe para filha, de avó para neto. É patrimônio cultural vivo da Amazônia e do resto do país.

O que a ciência descobriu sobre o quebra-pedra?

Um estudo clínico publicado na revista International Brazilian Journal of Urology avaliou 56 pacientes com pedras nos rins menores que 10 milímetros. Após 12 semanas usando infusão de Phyllanthus niruri, o número de pedras diminuiu de 3,2 para 2 por paciente. Em pacientes com hiperoxalúria, o oxalato urinário reduziu de 59,0 para 28,8 miligramas em 24 horas.

Segundo revisão publicada na Revista Medical Review, o chá de quebra-pedra não é capaz de quebrar pedras já formadas, mas reduz a excreção de substâncias que promovem cristalização. “O potencial antioxidante e anti-inflamatório de extratos contendo Phyllanthus niruri parece reduzir a taxa de formação e contribuir para a eliminação de pequenas pedras ou seus fragmentos”, conclui o estudo.

Pesquisa publicada no SciELO demonstra que a Phyllanthus niruri interfere em muitas etapas da formação de pedras: reduz agregação de cristais, modifica estrutura e composição, altera interação dos cristais com células tubulares. Os efeitos clínicos benéficos podem estar relacionados ao relaxamento ureteral, ajudando a eliminar cálculos.

Mas ela realmente funciona?

A resposta é sim. E agora tem ciência comprovando. A quebra-pedra possui uma série de compostos fenólicos que atuam no combate à inflamação e bactérias. Pode auxiliar no controle de açúcar no sangue. Favorece o bom funcionamento do sistema urinário.

Estudos da Fiocruz demonstram que a planta age em múltiplas frentes:

  • Relaxa a musculatura dos ureteres, facilitando a passagem de pedras
  • Reduz a formação de novos cristais nos rins
  • Impede a agregação de substâncias que formam cálculos
  • Aumenta a produção de urina, diluindo sais minerais
  • Combate bactérias causadoras de infecções urinárias

O efeito não é placebo ou crendice. São compostos químicos reais agindo no organismo. Flavonoides, alcaloides, taninos e lignanas trabalham em conjunto. A natureza criou uma farmácia completa numa planta de calçada.

Como a planta age contra pedras nos rins

O mecanismo é fascinante. As pedras nos rins se formam quando sais minerais se cristalizam. O principal vilão é o oxalato de cálcio, responsável por 80% dos casos de urolitíase. Esses cristais se juntam, crescem e viram aquelas pedras dolorosas.

Estudo publicado na revista Frontiers in Pharmacology demonstra que a quebra-pedra interfere nesse processo desde o início. A planta impede agregação dos cristais. Mantém os cristais dispersos, separados. O efeito diurético aumenta produção de urina. Mais urina significa mais diluição dos sais.

Segundo pesquisa da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), a utilização da planta promove relaxamento dos ureteres que, aliado a ação analgésica, facilita descida dos cálculos, geralmente sem dor nem sangramento. O extrato também normaliza níveis altos de cálcio urinário, diminuindo formação de novos cálculos.

Fiocruz desenvolve primeiro fitoterápico oficial

O medicamento resulta de parceria estratégica entre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) — via Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos) — e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

O investimento total é de R$ 2,4 milhões, do projeto Fitoterápicos do PNUD, financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF). Os recursos cobrem adequação de maquinário, compra de equipamentos, insumos, serviços, visitas técnicas e estudos laboratoriais.

A pesquisadora Maria Behrens, de Farmanguinhos/Fiocruz, explica que o fitoterápico atua em diferentes etapas da litíase urinária. “Não há atualmente no mercado um medicamento que atue de forma integrada nessas fases”, disse ao jornal O Povo.

O medicamento seguirá protocolos farmacêuticos rigorosos, com controle desde a matéria-prima até o produto final. Após produção dos lotes-piloto, serão realizados estudos de estabilidade necessários para submissão à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A expectativa é que o fornecimento ao SUS ocorra em até dois anos.

Conhecimento tradicional vira tecnologia

A iniciativa combina pesquisa científica com saberes tradicionais de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. O projeto segue a legislação brasileira que regula o acesso a esses conhecimentos e prevê repartição justa de benefícios.

O uso da quebra-pedra está fortemente ligado aos saberes ancestrais. A medicina popular brasileira transmite esses conhecimentos há séculos pela oralidade. “Os estudos com plantas medicinais valorizam os saberes ancestrais. São responsáveis também pela preservação da floresta. Potencializam novas pesquisas sobre o uso de ervas e a promoção da qualidade de vida”, explica a professora Márcia Aviz, que ministra disciplinas de plantas medicinais e aromáticas no curso de Agronomia, no campus Belém da Ufra.

“Quando o conhecimento tradicional é tratado como tecnologia, com consentimento prévio e repartição de benefícios, a inovação ganha propósito”, afirma Carina Pimenta, secretária nacional de Bioeconomia do MMA. Ela destaca que a parceria viabiliza o primeiro fitoterápico de laboratório público em conformidade com as normas da Anvisa, unindo ciência, território e saúde pública.

Por que isso é importante para quem vive na Amazônia?

Para Marcia Aviz, a inclusão da quebra-pedra no SUS marca momento histórico para comunidades tradicionais. “É apresentar à sociedade em geral os benefícios e o potencial que as plantas medicinais possuem. Muitos de nós, em algum momento da vida, já ouvimos nossos avós falarem ‘tenho um remedinho natural para isso’, que geralmente eram os chás, as infusões, os unguentos, as pomadas”, relembra a professora.

A medida reconhece oficialmente práticas terapêuticas milenares. Valoriza conhecimentos frequentemente tratados como superstição. Coloca comunidades tradicionais no centro da inovação científica.

O impacto econômico também promete ser expressivo. Segundo pesquisa da Embrapa, a maior parte do quebra-pedra que abastece o mercado de fitoterápicos provém de coleta extrativista, o que gera matéria-prima de origem e qualidade duvidosa. Com o medicamento oficial, agricultores familiares poderão cultivar quebra-pedra comercialmente. Cooperativas de comunidades ribeirinhas organizam coleta e venda. A renda fica na região.

Estudos da Embrapa demonstram que Phyllanthus amarus pode produzir até 4.765 quilos por hectare de matéria seca em Paraipaba (CE), e P. niruri até 810 quilos por hectare em Manaus. A produção em Manaus apresentou os maiores teores de compostos fenólicos e ácido gálico, principais marcadores químicos da planta.

Qualquer um pode usar quebra-pedra?

Calma lá. Antes de sair arrancando planta de calçada, alguns alertas são necessários. Natural não significa inofensivo. Mesmo produtos da natureza podem causar problemas se usados incorretamente.

Orientações importantes incluem:

  1. Consulte médico ou profissional de saúde qualificado antes de usar
  2. Evite durante gravidez e amamentação sem supervisão médica
  3. Respeite dosagens indicadas por especialistas
  4. Observe possíveis interações com outros medicamentos
  5. Não substitua tratamento médico sem orientação profissional
  6. Certifique-se da identificação correta da espécie antes de coletar

A pesquisadora Maria Behrens alerta que a padronização industrial evita riscos de preparações caseiras. “Adulterações ou baixo teor de ativos comprometem eficácia ou causam efeitos indesejados”, explica. O medicamento fitoterápico da Fiocruz terá controle de qualidade rigoroso. Cada lote passará por análises detalhadas. A padronização garante segurança e eficácia.

O que mais essa plantinha pode fazer

Pedras nos rins são apenas o começo. Estudos revelam outros benefícios da quebra-pedra. Segundo revisão do site Fitoterapia Brasil, que compila estudos científicos sobre plantas medicinais, a Phyllanthus niruri possui propriedades comprovadas:

  • Hepatoprotetora: protege o fígado contra lesões e doenças
  • Antiviral: atividade contra vírus da hepatite B
  • Hipoglicemiante: auxilia controle de açúcar no sangue
  • Hipolipemiante: reduz colesterol e triglicerídeos
  • Anti-hipertensiva: redução discreta da pressão arterial
  • Antibacteriana: combate bactérias causadoras de infecções urinárias

Estudo publicado no International Brazilian Journal of Urology demonstra que o aumento de potássio e magnésio urinário leva à alcalinização da urina. Isso aumenta citrato urinário, potente inibidor da formação de pedras de cálcio.

Últimas notícias

Cide incubadora abre seleção para startups em Manaus

Curso de bioacústica na Amazônia abre inscrições

Inpa lança sete livros científicos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *