- Entre 2010 e 2025, o Amazonas destinou R$ 1,73 bilhão para ciência via Fapeam, mas executou apenas 61,2%, deixando R$ 670 milhões sem investimento efetivo em pesquisa.
- O percentual do orçamento estadual para ciência caiu de 0,88% em 2011 para 0,49% em 2025, redução de quase metade em 15 anos.
- Em 2026, a Fapeam tem o maior orçamento da história: R$ 160,3 milhões, com execução iniciada em fevereiro.
O Amazonas destinou R$ 1,73 bilhão para fomento à pesquisa científica via Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) entre 2010 e 2025. Desse montante, apenas R$ 1,06 bilhão foi efetivamente executado, resultando em um gap de R$ 670 milhões que deixaram de ser investidos em ciência e tecnologia. A taxa de execução orçamentária de 61,2% revela dificuldades históricas na conversão de promessas em investimento real. Para 2026, a Fapeam tem o maior orçamento da história (R$ 160,3 milhões), com execução iniciada em fevereiro.
A análise detalhada dos dados da Fapeam (Tabela completa no final) mostra que a ciência perdeu prioridade nas políticas públicas estaduais ao longo dos anos. Enquanto em 2010 o estado destinava 0,88% do orçamento total para o amparo a pesquisa, em 2025 esse percentual caiu para 0,49%, menos da metade. O orçamento estadual cresceu de R$ 7,7 bilhões para R$ 28,2 bilhões no período, mas os recursos para pesquisa não acompanharam esse crescimento.
Governo Omar liderou execução orçamentária
Entre 2010 e 2014, o governo Omar Aziz destinou R$ 452,65 milhões à Fapeam, executando 66% desse valor. Essa foi a melhor taxa de execução entre todos os governos analisados. O fomento efetivo para editais de pesquisa atingiu R$ 274,52 milhões, com média anual de R$ 54,90 milhões.
O período foi marcado pela priorização relativa da ciência. O percentual médio do orçamento estadual destinado à Fapeam alcançou 0,87%, o maior da série histórica. Em 2011, esse índice chegou a 0,92%, recorde que nunca mais foi superado. A taxa de execução também cresceu ao longo do mandato: de 54,7% em 2010 para 79,7% em 2014, o melhor resultado anual de todos os governos analisados.
Crise fiscal de 2015 devastou investimentos
O ano de 2015 marcou o pior momento para a ciência no Amazonas. De R$ 120,2 milhões previstos para a Fapeam, apenas R$ 20,6 milhões foram executados, resultando na menor taxa de execução da série histórica: 17,1%. O estado encerrou 2015 com perdas de aproximadamente R$ 1,5 bilhão na receita própria, reflexo da crise econômica nacional.
Entre 2015 e 2017, no governo José Melo, a taxa média de execução foi de apenas 36,3%, a pior entre todos os mandatos. O orçamento total da Fapeam no período foi de R$ 316,58 milhões, mas somente R$ 114,90 milhões foram pagos. O fomento efetivo para pesquisa atingiu apenas R$ 109,11 milhões, média de R$ 36,37 milhões por ano. O valor não executado chegou a R$ 201,68 milhões, com 63,7% do previsto ficando apenas no papel.
Apesar da grave crise fiscal, a Fapeam manteve 95% do orçamento destinado a fomento, percentual que se consolidou como padrão institucional a partir de 2012. Essa consistência demonstra o compromisso da fundação em preservar editais e bolsas mesmo durante contingenciamentos severos, em linha com sua missão de aumentar o estoque de conhecimento científico e tecnológico do estado.
Governo Amazonino: transição e execução intermediária
O governo Amazonino Mendes assumiu em maio de 2017, mas os dados de 2018 (seu único ano completo de mandato conforme o recorte da análise) registram R$ 98,52 milhões orçados e R$ 51,17 milhões pagos, com taxa de execução de 51,9%. O fomento efetivo atingiu R$ 48,38 milhões, com R$ 47,35 milhões não executados.
O percentual do orçamento estadual destinado à Fapeam ficou em 0,70% em 2018, abaixo da média do governo Omar, mas acima dos anos seguintes. O mandato representou um período de transição pós-crise, sem recuperação plena da capacidade de execução orçamentária.

Governo atual investe mais, mas prioriza menos
O governo Wilson Lima, entre 2019 e 2025, investiu R$ 863,16 milhões em valores absolutos (o maior volume da história) e executou R$ 595,42 milhões, com taxa de execução de 69%, superior à média geral da série. A média anual de R$ 85,06 milhões pagos superou todos os mandatos anteriores. O fomento efetivo para pesquisa totalizou R$ 562,81 milhões, com média de R$ 80,40 milhões por ano.
No entanto, o percentual médio do orçamento estadual para a Fapeam foi de apenas 0,60%, o menor de todos os governos analisados. A tendência é preocupante: o índice caiu de 0,81% em 2019 para 0,49% em 2025, queda de 40% ao longo do mandato. Em 2026, o estado lançou 15 editais com investimentos na casa dos R$ 81 milhões, sinalizando aposta no maior orçamento histórico da fundação.
A execução orçamentária apresentou oscilações significativas no período. Em 2022, a taxa atingiu 99,6%, quase perfeita. Em 2023, manteve-se elevada em 94,5%. Já em 2019, primeiro ano do mandato, ficou em apenas 40,3% , e em 2020 em 47,4%, reflexo parcial da instabilidade fiscal agravada pela pandemia. Em 2024 e 2025, o índice recuou para 74,3% e 67,7%, respectivamente. Os dados de 2026 ainda não apresentam execução efetiva.
Evolução do Orçamento e Execução (2010-2025)
Onde o dinheiro é investido
A partir de 2019, os recursos da Fapeam se concentram em linhas estratégicas que refletem a missão da fundação de aplicar o conhecimento científico no interesse econômico e social do Amazonas. As linhas com maior participação no orçamento LOA são o Fomento à Formação Sustentável de Recursos Humanos para Ciência, Tecnologia e Inovação (a de maior alocação), seguida pelo Apoio à Infraestrutura Resiliente para CT&I e pelo Fomento a Projetos de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Outras linhas relevantes incluem o Fomento à Popularização e Difusão da Ciência, o Fomento ao Empreendedorismo de Base Tecnológica e as ações de Internacionalização e Cooperação Interinstitucional. A linha Mulheres e Meninas na Ciência, Tecnologia e Inovação e o Fomento a Projetos para Vigilância e Respostas a Pandemias também compõem o portfólio, evidenciando a diversidade de frentes de atuação da fundação.
Padrão de 95% para fomento se mantém
Desde 2012, todos os governos destinam aproximadamente 95% do orçamento da Fapeam para editais de pesquisa, bolsas e apoio a projetos científicos. Os 5% restantes cobrem custeio administrativo, pessoal e infraestrutura. Essa consistência independe do partido no poder, do tamanho do orçamento ou da taxa de execução, o que demonstra solidez institucional da fundação em torno de sua finalidade central.
Em 2010 e 2011, o percentual de destinação a fomento ficou abaixo do padrão posterior (93,8% e 74,6%, respectivamente), mas foi progressivamente corrigido para o patamar de 95% a partir de 2012. O governo Melo registrou a maior média de destinação: 94,98%. Os demais, Wilson Lima (94,60%), Amazonino (94,54%) e Omar Aziz (90,68%), também se mantiveram próximos desse referencial.
Veja o resumo da análise em um infográfico no final.

Missão da Fapeam no desenvolvimento regional
A Fapeam foi criada com o objetivo de amparar a pesquisa científica básica e aplicada ao desenvolvimento tecnológico e experimental no Estado do Amazonas, em todas as áreas do conhecimento. A fundação tem como finalidade aumentar o estoque de conhecimentos científicos e tecnológicos e sua consequente aplicação no interesse do desenvolvimento econômico e social do estado.
A instituição atua em oito linhas de ação, incluindo formação de recursos humanos, popularização da ciência, apoio a mulheres na ciência e empreendedorismo científico. A manutenção do padrão de 95% para fomento demonstra compromisso institucional com editais e bolsas, mesmo em períodos de contingenciamento. Para a Amazônia, região estratégica para bioeconomia e tecnologias verdes, a capacidade de gerar conhecimento aplicado depende de recursos executados de forma consistente.
Prioridade à Ciência: % do Orçamento Estadual para Fapeam
Gap de execução compromete inovação
Esses R$ 670 milhões não executados entre 2010 e 2025 representa perda concreta de oportunidades em inovação, formação de pesquisadores e desenvolvimento regional. De cada R$ 100 prometidos para pesquisa, apenas R$ 61,20 chegaram efetivamente a laboratórios e projetos científicos. Os R$ 38,80 restantes ficaram apenas no papel.
Por governo, o valor que não saiu do papel foi distribuído da seguinte forma: Wilson Lima deixou de executar R$ 267,74 milhões (31% do previsto), Melo R$ 201,68 milhões (63,7%), Omar R$ 154,06 milhões (34%), e Amazonino R$ 47,35 milhões (48,1%). O governo Melo apresentou a maior lacuna proporcional devido à crise fiscal e governamental aguda do período.
Contexto nacional dos investimentos
No contexto nacional, São Paulo lidera os investimentos estaduais em pesquisa, com 64,4% dos recursos para P&D em 2022, seguido pelo Rio de Janeiro (9,6%) e Paraná (6,4%). O Brasil investe em média 1% do PIB em ciência e tecnologia, patamar ainda distante de potências científicas mundiais.
Entre 2020 e 2022, o dispêndio dos estados somados cresceu 45,4%, atingindo R$ 27,8 bilhões. No entanto, nem todos os estados alocam o recurso previsto na própria legislação. Em 2022, das 27 Fundações de Amparo à Pesquisa estaduais, apenas R$ 3,7 bilhões foram executados dos R$ 11,2 bilhões previstos em lei.
Por que isso importa
A queda no percentual do orçamento estadual destinado à ciência indica que outras áreas cresceram mais rapidamente que pesquisa e desenvolvimento. Isso pode refletir aumento de gastos com folha de pagamento, infraestrutura física ou programas sociais.
Mas para uma região estratégica em biodiversidade, bioeconomia e desenvolvimento sustentável, a perda de recursos em ciência compromete diretamente a finalidade institucional da Fapeam: gerar conhecimento científico e tecnológico aplicado ao interesse econômico e social do Amazonas.
A oscilação na execução orçamentária prejudica o planejamento de médio e longo prazo por parte de pesquisadores e instituições. Projetos de pesquisa dependem de previsibilidade para serem desenvolvidos. A taxa média de 61,2% em 15 anos demonstra fragilidade estrutural na gestão dos recursos para ciência e tecnologia. Com o maior orçamento histórico em 2026 (R$ 160,3 milhões), representando 0,47% do orçamento estadual, o Amazonas tem uma oportunidade concreta de reverter a tendência de queda relativa e consolidar uma base científica à altura de sua importância estratégica para o Brasil e o mundo.
Dados Detalhados por Ano
| Ano | Governo | Orç. Fapeam | Pago | % Exec. | Fom. Previsto | Fom. Efetivo |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2010 | OMAR | R$ 67,8M | R$ 37,1M | 54,7% | R$ 63,6M | R$ 34,8M |
| 2011 | OMAR | R$ 84,1M | R$ 42,6M | 50,7% | R$ 62,7M | R$ 31,8M |
| 2012 | OMAR | R$ 88,8M | R$ 54,5M | 61,4% | R$ 84,3M | R$ 51,8M |
| 2013 | OMAR | R$ 98,5M | R$ 74,0M | 75,1% | R$ 93,6M | R$ 70,3M |
| 2014 | OMAR | R$ 113,5M | R$ 90,4M | 79,7% | R$ 107,8M | R$ 85,9M |
| 2015 | MELO | R$ 120,2M | R$ 20,6M | 17,1% | R$ 114,2M | R$ 19,6M |
| 2016 | MELO | R$ 103,7M | R$ 58,7M | 56,6% | R$ 98,5M | R$ 55,7M |
| 2017 | MELO | R$ 92,6M | R$ 35,6M | 38,5% | R$ 88,0M | R$ 33,8M |
| 2018 | AMAZONINO | R$ 98,5M | R$ 51,2M | 51,9% | R$ 93,1M | R$ 48,4M |
| 2019 | WILSON | R$ 127,3M | R$ 51,3M | 40,3% | R$ 120,9M | R$ 48,8M |
| 2020 | WILSON | R$ 125,7M | R$ 59,6M | 47,4% | R$ 119,5M | R$ 56,6M |
| 2021 | WILSON | R$ 122,5M | R$ 81,6M | 66,6% | R$ 115,9M | R$ 77,2M |
| 2022 | WILSON | R$ 105,1M | R$ 104,7M | 99,6% | R$ 97,7M | R$ 97,4M |
| 2023 | WILSON | R$ 114,7M | R$ 108,3M | 94,5% | R$ 108,4M | R$ 102,4M |
| 2024 | WILSON | R$ 131,0M | R$ 97,3M | 74,3% | R$ 124,4M | R$ 92,4M |
| 2025 | WILSON | R$ 136,8M | R$ 92,6M | 67,7% | R$ 130,2M | R$ 88,1M |
| 2026 | WILSON | R$ 160,3M | — | Em execução | R$ 152,3M | — |
💡 Dica: role horizontalmente para ver todas as colunas. Fomento Efetivo é estimativa proporcional. Dados 2026: orçamento aprovado, execução em andamento.
Glossário
- Fapeam: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, responsável por amparar a pesquisa científica básica e aplicada ao desenvolvimento tecnológico em todas as áreas do conhecimento.
- SECTI-AM: Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas.
- LOA: Lei Orçamentária Anual, lei que estima as receitas e fixa as despesas do governo para o exercício fiscal.
- Fomento: Recursos destinados a editais de pesquisa, bolsas de estudo e apoio a projetos científicos.
- Gap de execução: Diferença entre o orçamento previsto e o valor efetivamente pago e executado.
- Taxa de execução: Percentual do orçamento previsto que foi efetivamente desembolsado no ano de referência.
- Contingenciamento: Bloqueio temporário de recursos orçamentários devido a problemas fiscais ou ajustes de metas.
- C&T: Ciência e Tecnologia.
- P&D: Pesquisa e Desenvolvimento.
Infográfico
Investimento em Ciência e Tecnologia
Uma análise dos recursos destinados à Fapeam no Amazonas
2010 – 2025Comparação entre Governos
OMAR
2010-2014 (5 anos)
MELO
2015-2017 (3 anos)
AMAZONINO
2018 (1 ano)
WILSON
2019-2025 (7 anos)
Principais Insights da Análise
1. A queda da ciência como prioridade
O percentual do orçamento estadual destinado à Fapeam caiu de 0,92% (2011) para 0,49% (2025) — uma redução de 47% em termos proporcionais. Isso significa que, mesmo com orçamentos estaduais crescentes, a ciência perdeu espaço relativo nas prioridades governamentais ao longo de 15 anos.
2. A crise de 2015: o pior momento
O ano de 2015 marcou o pior índice de execução da série histórica: apenas 17,1% do orçamento da Fapeam foi efetivamente pago. De R$ 120 milhões previstos, apenas R$ 20 milhões chegaram à pesquisa — reflexo direto da grave crise fiscal que atingiu o país e o estado.
3. O gap de execução: R$ 671 milhões
Entre o que foi prometido e o que foi efetivamente pago em fomento à pesquisa, há um buraco de R$ 671 milhões. Esse é o valor que, ao longo de 15 anos (2010–2025), deixou de chegar a laboratórios, pesquisadores e projetos de inovação no Amazonas.
4. Omar: eficiência na execução
O governo Omar (2010-2014) teve a melhor taxa de execução orçamentária: 66% do previsto para fomento foi efetivamente pago. Além disso, foi o período em que a ciência teve maior prioridade relativa, com média de 0,87% do orçamento estadual destinado à Fapeam.
5. Wilson: maior volume, menor prioridade relativa
O governo Wilson (2019-2025) tem os maiores valores absolutos — R$ 563 milhões em fomento efetivo — mas destina o menor percentual médio do orçamento estadual à ciência: 0,60%. O orçamento do estado cresceu muito mais rápido que os recursos para C&T.
6. Consistência no direcionamento a fomento
A partir de 2012, todos os governos mantiveram um padrão estável: aproximadamente 95% do orçamento da Fapeam é destinado a fomento (editais, bolsas e projetos). Isso mostra que, independente do governo, a priorização interna da Fapeam para pesquisa se mantém consistente.
Metodologia
Sobre os dados: Os valores de “Fomento Efetivo” são estimativas calculadas proporcionalmente. Como os dados brutos não informam quanto foi especificamente pago em fomento (apenas quanto foi previsto), aplicamos o percentual de fomento previsto ao valor total efetivamente pago. Esta é uma aproximação conservadora que assume proporcionalidade no corte orçamentário.
Perspectiva orçamentária: Para calcular o investimento total por ano, somamos o valor “Pago” no ano com o valor “Pago Exercício Anterior” do ano seguinte, refletindo compromissos assumidos no ano mas pagos posteriormente.
Fonte: Portal da Transparência e Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) dos anos de 2010 a 2025, compilados em planilha com informações de orçamento, autorização e execução da Fapeam. Dados de 2026 referem-se ao orçamento aprovado, com execução em andamento.
*Esta reportagem utilizou o Cloud Sonnet 4.6 para a análise dos dados e geração dos gráficos.