• Mais de 5 mil manejadores de pirarucu serão remunerados pelo PSA Pirarucu, lançado em Manaus pelo governo federal.
  • O manejo participativo define quotas com base em contagens populacionais, retirando até 30% dos adultos e mantendo 70% para reprodução.
  • O programa mobiliza R$ 15 milhões em dois anos, fortalece a renda ribeirinha e reconhece o papel das comunidades na conservação da Amazônia.

Mais de 5 mil manejadores de pirarucu passarão a receber pagamento por serviços ambientais a partir do Programa de Pagamento por Serviços Ambientais do Pirarucu (PSA Pirarucu), lançado nesta quinta-feira (26) em Manaus (AM) pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, em reconhecimento ao trabalho do Instituto Mamirauá e de comunidades da Amazônia na conservação da espécie.

O PSA Pirarucu deve beneficiar mais de 40 organizações comunitárias que atuam em 41 áreas protegidas da Amazônia, somando mais de 20 milhões de hectares. A iniciativa prevê a mobilização de aproximadamente R$ 15 milhões em dois anos, no âmbito do Projeto Floresta+ Amazônia, política federal voltada à valorização de serviços ambientais prestados por comunidades e produtores rurais.

Na mesa de lançamento em Manaus, participaram a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, a coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, Ana Cláudia Gonçalves, e Pedro Canizio Oliveira da Silva, representante da Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu da Região de Mamirauá (Femapam).

De escassez a superpopulação manejada de pirarucu

O anúncio do PSA Pirarucu ocorre em um contexto de duas décadas de manejo participativo da espécie na região de Mamirauá. Segundo Ana Cláudia Gonçalves, o resultado acumulado é uma mudança estrutural no cenário da pesca do pirarucu.

“Esta semana é histórica. Aqueles 42 manejadores que começaram este trabalho junto com a equipe do Programa de Pesca (do Instituto Mamirauá): 25 anos depois saímos de um cenário de escassez da espécie para um cenário de uma superpopulação do pirarucu nestes territórios onde o manejo ocorre”, celebrou Ana Cláudia em sua fala.

A participação do Instituto Mamirauá no lançamento reforça uma trajetória de mais de 20 anos dedicada ao fortalecimento dos modos de vida de comunidades tradicionais e indígenas e à conservação da biodiversidade com base no uso sustentável dos recursos naturais.

Como funciona o manejo participativo do pirarucu

Criado em 1998 para responder ao declínio agudo de pescado, o então Programa de Comercialização do Pescado, hoje Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, tem como objetivo conservar os recursos pesqueiros por meio do manejo participativo. A iniciativa é desenvolvida em parceria com populações ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e de outras áreas da bacia amazônica.

Desde 1999, o manejo do pirarucu (Arapaima gigas) nas áreas manejadas da Reserva Mamirauá contribuiu para um aumento de aproximadamente 620% no estoque natural da espécie, aliado ao incremento da renda dos pescadores envolvidos.

O modelo participativo envolve comunidades e organizações locais em todas as etapas:

  • vigilância dos ambientes aquáticos para coibir pesca ilegal;
  • definição de regras de uso dos lagos e rios;
  • monitoramento dos estoques por meio de contagens populacionais;
  • planejamento da pesca anual;
  • comercialização organizada do pescado.

A quota de pesca é definida com base em contagens de indivíduos adultos e prevê a retirada de até 30% dos adultos, garantindo a permanência de pelo menos 70% dos peixes para reprodução. Esse critério técnico é central para manter a recuperação da espécie e a estabilidade do sistema de manejo.

Impacto nas comunidades ribeirinhas da Amazônia

Na Reserva Mamirauá, os recursos pesqueiros têm papel central na segurança alimentar e na economia local. A pesca é a principal fonte de proteína animal para as comunidades e uma das principais fontes de renda.

Dados de pesquisa do Instituto Mamirauá indicam que a pesca foi a atividade produtiva que mais ampliou sua participação na renda doméstica ao longo de uma década. A metodologia de manejo do pirarucu, desenvolvida com as comunidades, foi posteriormente replicada em boa parte da bacia amazônica, incluindo áreas em países vizinhos.

Além do pirarucu, o Instituto Mamirauá apoia o manejo de:

  • recursos pesqueiros de outras espécies;
  • jacarés de vida livre;
  • recursos florestais madeireiros e não madeireiros;
  • sistemas agroecológicos adaptados ao contexto amazônico;
  • turismo de base comunitária.

Essas ações fortalecem organizações de base comunitária e ampliam a participação de moradores locais na gestão e governança dos territórios, o que é um dos pilares reconhecidos pelo PSA Pirarucu.

PSA Pirarucu e serviços ambientais

O PSA Pirarucu insere o manejo comunitário da pesca em uma agenda mais ampla de pagamento por serviços ambientais, que busca remunerar populações locais pela conservação de florestas, rios e biodiversidade.

No caso do pirarucu, os serviços ambientais incluem:

  • manutenção de estoques pesqueiros saudáveis;
  • proteção de áreas úmidas e habitats aquáticos;
  • redução da pressão de pesca predatória;
  • fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis.

A experiência acumulada pelo Instituto Mamirauá e pelas comunidades ribeirinhas ao longo de mais de duas décadas de manejo contribui diretamente para o desenho e a implementação do PSA Pirarucu, que passa a reconhecer financeiramente o papel dessas populações na conservação dos ecossistemas amazônicos.

Glossário

  • Pagamento por serviços ambientais (PSA): Mecanismo econômico que remunera pessoas ou comunidades por ações que conservam ou recuperam ecossistemas, como florestas, rios e biodiversidade.
  • Manejo participativo: Modelo de gestão de recursos naturais em que comunidades locais participam de todas as etapas de decisão, monitoramento e uso, junto com instituições de pesquisa e órgãos públicos.
  • Pirarucu (Arapaima gigas): Uma das maiores espécies de peixe de água doce do mundo, nativa da Amazônia, com importância ecológica, cultural e econômica para populações ribeirinhas.
  • Serviços ambientais: Benefícios gerados pelos ecossistemas, como regulação do clima, proteção da água, conservação da biodiversidade e provisão de alimentos.

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