- Instituto Federal do Amazonas recebe R$ 1,9 milhão do Google.org para projeto de inteligência artificial que prevê incêndios na Amazônia com uma semana de antecedência.
- Sistema IA-FogoBio promete 90% de acurácia na previsão de queimadas usando dados meteorológicos, do solo e bioma amazônico para análise preditiva.
- Projeto incluirá treinamento de comunidades vulneráveis e desenvolvimento de alertas para áreas de risco na Amazônia Legal.
O Instituto Federal do Amazonas (Ifam) conquistou o maior financiamento da América Latina do Google.org, no valor de R$ 1,9 milhão. O recurso será destinado ao projeto IA-FogoBio, que utiliza inteligência artificial para prever incêndios na Amazônia Legal com pelo menos uma semana de antecedência.
A iniciativa foi uma das oito selecionadas entre 395 inscritas no edital Desafio IA Natureza & Clima. O programa é resultado da parceria entre o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Google, com investimento total de R$ 18 milhões.
Em entrevista ao Portal A Crítica, publicada neste sábado (25), o coordenador do projeto, Diego Sales, doutor em Automação de Sistemas e professor do Ifam, explicou os diferenciais da proposta em relação aos sistemas de monitoramento existentes.
Como surgiu o projeto de IA contra queimadas
O projeto nasceu de uma experiência concreta vivida pelo pesquisador. Sales relatou que a fumaça de incêndios florestais chegou a Manaus, prejudicando a cidade e forçando o fechamento das instalações do Ifam.
“Aquilo me fez questionar o que poderia ser feito para evitar que ocorresse novamente”, explicou o professor. Após pesquisar as tecnologias existentes e conversar com especialistas do Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia), ele identificou uma lacuna importante.
Os sistemas atuais, como o Painel do Fogo, funcionam de forma reativa. Ou seja, identificam onde o fogo já está acontecendo e estruturam operações para combatê-lo. Sales viu a possibilidade de criar algo proativo.
Previsão de incêndios com inteligência artificial
O IA-FogoBio promete revolucionar o combate às queimadas na Amazônia. O sistema utilizará modelos matemáticos capazes de prever, com sete a 14 dias de antecedência, as condições que favorecem incêndios florestais.
A tecnologia aproveitará cerca de 20 anos de dados coletados pelo Censipam. Essas informações históricas serão cruzadas com dados meteorológicos, do solo e do bioma amazônico para criar relatórios de áreas de risco.
O projeto objetiva alcançar 90% de acurácia nas previsões. Para isso, utilizará dados de satélites e georreferenciamento para mapear potenciais locais de risco em toda a Amazônia Legal.

Diferencial em relação aos sistemas existentes
Programas como o Deter, do governo federal, já fazem monitoramento em tempo real. Porém, o IA-FogoBio traz uma abordagem completamente diferente.
“Trabalhamos com a base de dados e especialistas que vão nos orientar após análise de casos passados”, explicou Sales. O sistema analisará como os incêndios aconteceram anteriormente, quanto tempo levaram para se desenvolver e quais foram os sinais precursores.
A proposta vai além da simples detecção. O objetivo é evoluir para um sistema de inteligência operacional que indique:
- Quantas pessoas serão necessárias para combater o fogo
- Quais equipamentos levar para cada situação
- Qual o custo logístico das operações
- Como otimizar recursos governamentais
Participação estudantil e inclusão social
O projeto tem forte componente educacional e social. Das 17 pessoas envolvidas, seis são estudantes do Ifam. A equipe foi formada seguindo critérios de diversidade estabelecidos pelo edital do iCS.
A composição inclui 50% de mulheres e 30% de pessoas pretas e pardas. O grupo conta ainda com uma pessoa com deficiência (PcD) e três pessoas pretas, demonstrando o compromisso com a inclusão social.
Treinamento de comunidades vulneráveis
Uma das características mais inovadoras do projeto é o trabalho direto com comunidades. Quando o sistema identificar alta probabilidade de incêndios, as equipes irão a campo para verificação e registro dos resultados.
As comunidades em áreas vulneráveis receberão treinamento para conhecer e utilizar o sistema. Elas poderão receber mensagens de alerta quando estiverem próximas a regiões de risco, criando uma rede de prevenção comunitária.
Sustentabilidade energética do projeto
O uso intensivo de inteligência artificial gera debates sobre consumo energético. Sales reconhece a preocupação e apresenta soluções sustentáveis para o projeto.
O Polo de Inovação do Ifam, onde funcionará o sistema, já possui painéis fotovoltaicos com sobra de geração. A IA será alimentada predominantemente por energia solar renovável.
A estratégia de desenvolvimento prevê três etapas:
- Definir metodologia e modelo matemático
- Aprimorar algoritmos para menor consumo
- Utilizar tecnologias com menor custo energético
Desafios da pesquisa na Amazônia
Sales destacou as dificuldades para desenvolver pesquisa de ponta na região. O primeiro desafio é formar capital humano qualificado para projetos complexos e captação de recursos maiores.
“A academia precisa ficar mais próxima da comunidade e da sociedade”, defendeu o pesquisador. Ele citou exemplos práticos: um drone com câmera multiespectral, necessário para análises avançadas, custa cem mil dólares, enquanto editais regionais disponibilizam R$ 50 mil a R$ 60 mil.
Futuro da IA no Amazonas
O professor vê potencial para o Amazonas na revolução da inteligência artificial. A Zona Franca de Manaus e a Lei de Informática já direcionam investimentos para pesquisa e inovação.
Porém, Sales aponta que os recursos atuais atendem principalmente às necessidades industriais. Ele defende a criação de fundos específicos para solucionar problemas da sociedade amazônica.
“Precisamos ampliar investimentos para acompanhar o avanço tecnológico”, afirmou. “Hoje se fala em indústria 4.0, mas logo será 6.0 ou mais.”
O que esperar daqui pra frente
O projeto representa um marco para a pesquisa científica brasileira na área ambiental. Com previsão de início imediato, a primeira etapa envolverá estruturação de servidores e aquisição de equipamentos de alta tecnologia.
A expectativa é que o sistema comece a gerar os primeiros resultados ainda em 2025. Se bem-sucedido, poderá ser replicado em outras regiões do país e servir de modelo para iniciativas similares na América Latina.
O IA-FogoBio promete transformar a abordagem de combate a incêndios florestais, substituindo a reação pela prevenção inteligente.
Glossário
- IA-FogoBio: Sistema de inteligência artificial para previsão de incêndios florestais desenvolvido pelo Ifam.
- Censipam: Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, órgão responsável pelo monitoramento da região.
- Deter: Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real, programa do governo federal.
- Google.org: Braço filantrópico da empresa Google, focado em projetos de impacto social e ambiental.
- iCS: Instituto Clima e Sociedade, organização que promove ações contra mudanças climáticas.
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